O Projeto

O Projeto
“De Repente, Canta a Gente”

Alegria da Cantoria – Será que és capaz?

Como diz o ditado popular “Quem canta seus males espanta”, por isso:
vem para a desgarrada!

Queres cantar à desgarrada?
Queres levar a vida a cantar?

Cantar de repente não é para todos… atreve-te!…
Tens coragem para a desgarrada?

É para promover o património imaterial do Alto Minho – onde se incluem os Cantares ao Desafio – para encontrar e desenvolver novos talentos que surge o projeto “De Repente, Canta a Gente” promovido pela Comunidade Intermunicipal do Alto Minho (CIM Alto Minho). Neste site podes encontrar ferramentas para criares a habilidade de cantar ao desafio como os melhores cantadores do Alto Minho. Vê e ouve os nossos tutoriais (áudio, vídeo e texto), segue as nossas ações de capacitação, os nossos concertos, constrói as tuas rimas, grava-te em áudio ou em vídeo e envia-nos para vermos se tens talento e língua para a desgarrada…

Quem sabe, tens um talento à espera de ser descoberto?
Quem sabe, vais ser um grande artista?
Atreve-te!…

O que é repentismo?

Produzir poesia popular na hora, de improviso…

Fenómeno da cultura tradicional, o repentista é um poeta popular improvisador que, partindo de um tema, desenvolve toda uma retória em forma poética humorística, irónica e provocadora. Apesar de muitas vezes não terem elevada formação académica, os repentistas manejam a língua portuguesa com uma destreza virtuosística que surpreende os mais eruditos. Os cantadores conhecem os sons da língua melhor que ninguém e sabem combiná-los de forma harmoniosa num instante, de repente…

O que distingue a desgarrada do Alto Minho?

Um dos ícones do património cultural imaterial do Alto Minho é o famoso canto ao desafio ou desgarrada.

Num contexto em que formas de canto popular oriundas de outras regiões do País obtiveram reconhecimento mundial tais como o fado ou o cante alentejano, o canto ao desafio deve ser preservado e exibido como ícone diferenciador e identitário do Alto Minho, pelas especificidades que assume nesta região. O chamado canto repentista – no âmbito do qual se inclui o nosso canto ao desafio ou desgarrada – embora existindo em várias regiões do País e até mesmo no Brasil e na Galiza, no Alto Minho tem características diferentes e únicas, nomeadamente:

  • é acompanhado predominantemente pela concertina (os repentistas brasileiros e venezuelanos por exemplo, usam habitualmente cordofones);
  • utiliza palavras simples e uma linguagem direta (as palavras que o povo dominava), mesmo para descrever situações complexas, influência da “literatura de cordel” cuja origem remonta ao século XVI;
  • a desgarrada minhota admite o confronto/despique entre homens e mulheres;
  • a especificidade de ter 2, 3 ou 4 cantadores em simultâneo cruzando disputas verbais;
  • pode assumir diferentes formas de rima predominando as seguintes estrofes: quadra, sextilha, quadra desdobrada em sextilha e quintilha, e a dupla quadra ou oitava;
  • os versos são heptassilábicos (versos de 7 sílabas ou de redondilha maior)
  • a utilização de uma linguagem de segundo sentido

Só existe repentismo no Alto Minho?

Os “Cantares ao Desafio”, apesar de serem um dos expoentes da cultura tradicional do Alto Minho e de terem especificidades próprias que os distinguem dos demais, não são caso único no universo repentista. O ato de improvisar versos cantando, na hora, é praticado há muito, em várias latitudes e épocas da História. É algo que se encontra em distintas épocas da História da Música. Por exemplo: formas repentistas são utilizadas desde tempos ancestrais nos rituais religiosos, Budistas e Hinduístas – os Mantras.

Influenciados pelo judaísmo, os cristãos, desde o século IV, usam o Canto Antifonal e, desde o século VI o Canto Responsorial que, nos nossos dias, ainda pertence ao ordinário da missa católica. Na Idade Média a música trovadoresca recuperou o ato de compor versos “na hora”, deixando marcas na cultura galaico-portuguesa. Ainda hoje podemos verificar a predominância das desgarradas e cantares ao desafio no Minho, em Trás-os-Montes e na Galiza, ou seja, na área de influência do contexto galaico-português.

Antes de Portugal se constituir como nação, numa época em que o falar do povo nas duas margens do rio Minho ainda não se distinguia e em que se desenvolveram as peregrinações a Santiago de Compostela, os peregrinos que atravessavam os Pirenéus vindos da Provença (França), recorriam frequentemente à poesia trovadoresca, nomeadamente às cantigas de escárnio e maldizer, como forma de distração pelo humor, a fim de melhor vencerem as longas distâncias que percorriam a pé. O aspeto humorístico e de improviso estava já contido nestas cantigas.

Curiosamente, no Novo Mundo, surgem em grande quantidade formas similares, nomeadamente no nordeste brasileiro. Sendo Porto Seguro o primeiro local de desembarque de Pedro Álvares Cabral em Terras de Vera Cruz, e sabendo que, entre os primeiros a colonizar o Brasil, estiveram os minhotos, podemos assim explicar como a forma repentista aparece replicada com tamanha veemência do outro lado do Atlântico. No Nordeste Brasileiro os “repentistas de viola” acompanham com este instrumento a “Cantoria” do virtuosos poetas populares que cantam de improviso sobre variados temas usando uma grande diversidade de formas poéticas: galopes, martelos, sextilhas, oitavas, mote de sete sílabas, decassílabos e muitas mais. Noutras regiões do Brasil como por exemplo no estado do Rio Grande do Sul, os cantores repentistas são designados por “trovadores”

Herança secular na vizinha Galiza são as famosas “Regueifas” – diálogos cantados a despique onde se cultivam o humor e a ironia

Voltando ao Novo Mundo, e ainda na América do Sul temos o caso venezuelano, com o seu Canto Llanero (dos llanos ou planícies), forma repentista onde os Copleros (cantadores) se envolvem em acesas disputas verbais, acompanhados por cordofones, em concursos altamente disputados com prémios avultados.

Nas Caraíbas, podemos encontrar no Son Cubano em geral e no Son Montuno em particular – géneros que são a raiz da Salsa e de outros ritmos afro-latinos – o canto repentista por excelência.

Desde os tradicionais Son Montuno cubanos até à Salsa mais contemporânea encontramos uma primeira parte onde o tema é apresentado na sua forma original (introdução, estrofes, refrão…) e uma segunda parte, designada montuno, onde el cantante inicia um canto dialético com o coro formado pelos restantes membros da banda. Neste canto improvisado a nível da letra e da música, o cantor responde a um refrão cantado pelo coro improvisando alternativamente novas melodias e palavras, desenvolvendo e aprofundando as ideias do texto original da canção.

Ainda na América, surge no século passado o Rap e o Hip Hop, géneros que manuseiam com destreza o ritmo da palavra. Nas suas famosas “Battle Rap” – os MCs combatem entre si, ao desafio, com as palavras e ideias que proferem, num combate verbal mais ou menos aceso, enquadradas num ritmo de fundo (beat).

Um dado curioso relativo à cidade de Nova York que serviu de berço quer à Salsa quer ao Hip Hop na mesma década de 70 do Século XX. Sendo esta uma cidade de emigrantes, multicultural, organizada por bairros étnicos, a Salsa surge no Barrio Latino (habitado maioritariamente por emigrantes hispânicos ou seja, oriundos da América Latina, falando espanhol). Na mesma cidade e década, noutros bairros nos subúrbios negros de Nova York como o Bronx ou o Harlem (que fica mesmo ao lado do Spanish Harlem ou Barrio Latino), no seio das comunidades afro-americanas, surgem o Rap e o Hip Hop.

Apesar de não ser um país muito grande, em Portugal existe uma grande riqueza e diversidade no que ao canto repentista diz respeito coexistindo, em várias regiões, diferentes formas de canto popular improvisado: Alto Minho, Minho, Douro Litoral, Beiras, Alentejo, Madeira e Açores entre outras.

O canto repentista não sendo, assim, exclusivo do Alto Minho, é contudo aqui que reúne alguns dos seus expoentes máximos e caraterísticas muito próprias diferentes dos demais.

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